Epilepsia

Crise Convulsiva: O Que Fazer (e o Que NUNCA Fazer) na Hora

11 de jul. de 20267 min de leitura
Pessoa recebendo primeiros socorros durante uma crise convulsiva, protegida de lado em local seguro

Resposta direta

Diante de uma crise convulsiva, mantenha a calma, afaste objetos que possam machucar, proteja a cabeça e marque o tempo. Se a pessoa estiver deitada, vire-a com cuidado de lado e permaneça por perto até que recupere a consciência. Não segure os movimentos e não coloque nada na boca. Chame o SAMU 192 se a crise passar de 5 minutos, repetir logo depois, causar lesão ou ocorrer em situações de maior risco.

Ver alguém cair, perder a consciência e apresentar abalos no corpo assusta. Naquele momento, porém, agir com calma e evitar medidas perigosas é mais importante do que tentar interromper os movimentos à força.

Eu sou o Doutor Francinaldo Gomes, médico neurocirurgião, especialista em neuromodulação, epilepsia e cannabis medicinal, e neste artigo vou explicar como reconhecer uma crise convulsiva, prestar os primeiros socorros e identificar quando a situação exige o SAMU 192.

As orientações abaixo servem para reduzir o risco de trauma e manter a pessoa segura enquanto a crise acontece. Elas não substituem a avaliação da causa, especialmente quando é o primeiro episódio.

O que é uma crise convulsiva?

Uma crise convulsiva é um episódio de movimentos involuntários provocado por descargas elétricas excessivas no cérebro. Ela pode envolver parte do corpo ou o corpo inteiro e, em alguns casos, vir acompanhada de perda de consciência.

A Organização Mundial da Saúde explica que as crises podem variar muito: algumas causam apenas uma breve interrupção da atenção ou pequenos abalos musculares; outras provocam rigidez, queda e movimentos intensos. Por isso, nem toda crise epiléptica se parece com a convulsão que as pessoas costumam imaginar.

Também é importante separar dois conceitos:

  • Crise convulsiva é o episódio observado naquele momento.
  • Epilepsia é uma doença neurológica crônica caracterizada por crises recorrentes não provocadas.

Uma única convulsão, portanto, não confirma epilepsia. Segundo a OMS, uma crise isolada pode acontecer ao longo da vida sem que a pessoa tenha a doença. Febre na infância, alterações metabólicas e agressões agudas ao cérebro podem provocar um episódio; já a investigação de crises repetidas considera causas estruturais, genéticas, infecciosas, metabólicas, imunes ou ainda desconhecidas.

Se você precisa entender melhor essa diferença, leia o guia sobre epilepsia e a explicação dos tipos de epilepsia.

O que fazer quando alguém convulsiona?

O objetivo dos primeiros socorros é proteger a pessoa de lesões, manter a via aérea livre e observar o tempo. A recomendação central é não entrar em pânico e permanecer ao lado dela até que esteja novamente alerta.

Siga este passo a passo:

  1. Olhe o relógio e cronometre a crise. Anote o horário de início; a duração define quando a ajuda de emergência é necessária.
  2. Afaste perigos. Retire móveis, objetos pontiagudos, líquidos quentes e qualquer item que possa causar trauma durante os movimentos.
  3. Ajude a pessoa a chegar ao chão, se for possível com segurança. Não tente carregá-la enquanto os abalos acontecem.
  4. Proteja a cabeça. Coloque sob ela algo macio, baixo e plano, como uma roupa dobrada. Retire os óculos.
  5. Afrouxe o que estiver apertado no pescoço. Gravata, colar ou gola justa podem dificultar a respiração.
  6. Se estiver deitada, vire-a com cuidado de lado. Mantenha a boca voltada para baixo, sem forçar o pescoço, para ajudar a manter a via aérea livre.
  7. Permaneça por perto. Observe a respiração, impeça que outras pessoas se aglomerem e aguarde os movimentos terminarem.
  8. Depois, acolha e explique. Quando ela estiver despertando, fale com calma, diga o que aconteceu e ajude-a a permanecer em um lugar seguro.

Essas medidas seguem a orientação de primeiros socorros do CDC. Se houver uma pulseira ou identificação médica, procure informações sobre condições de saúde, contatos de emergência e orientações individuais.

Depois da crise, não apresse a pessoa para se levantar. Confusão e sonolência podem dificultar a compreensão do ambiente. Fique ao lado dela, preserve sua privacidade e ofereça ajuda para contatar um familiar.

O que NUNCA fazer durante uma convulsão?

Não tente parar os abalos à força e não coloque nada na boca. Essas atitudes não encerram a crise e podem causar ferimentos na pessoa e em quem tenta ajudar.

Evite também:

  • Conter os movimentos: segurar o corpo contra o chão pode provocar lesões.
  • Abrir a boca à força: objetos podem machucar dentes e mandíbula ou bloquear a via aérea.
  • Fazer respiração boca a boca durante os abalos: o CDC orienta não realizar essa manobra enquanto a crise está em curso.
  • Dar água, comida ou comprimidos: espere até que a pessoa esteja completamente alerta, pois há risco de engasgo.
  • Sacudir, gritar ou jogar água no rosto: essas ações não fazem a crise terminar.
  • Ir embora assim que os movimentos cessarem: a recuperação ainda exige observação, acolhimento e um ambiente seguro.

O mito de que é preciso impedir a pessoa de “engolir a língua” leva justamente às condutas mais perigosas. Em vez de manipular a boca, lateralize com cuidado quando ela estiver deitada, retire objetos ao redor e monitore o tempo.

Quando chamar o SAMU 192?

Chame o SAMU 192 se a crise durar mais de 5 minutos ou se outra crise começar logo depois, sem recuperação adequada. A emergência também é indicada diante de dificuldade para respirar ou despertar, lesão, gestação, primeira crise ou episódio dentro da água.

Use estes critérios objetivos:

  • a crise ultrapassou 5 minutos;
  • uma segunda crise começou pouco depois da primeira;
  • a pessoa não recupera a consciência como esperado;
  • há dificuldade para respirar após os movimentos;
  • houve queda, sangramento ou outra lesão;
  • o episódio aconteceu na água;
  • é a primeira crise conhecida daquela pessoa;
  • a pessoa está grávida;
  • a pessoa tem diabetes, perdeu a consciência e apresentou crise.

Esses sinais correspondem aos critérios de emergência descritos pelo CDC, adaptando o número de emergência para o SAMU no Brasil. Ao telefonar, informe o endereço exato, a duração da crise, se houve repetição, como está a respiração e se ocorreu algum trauma.

Nem toda crise de uma pessoa com diagnóstico conhecido exige ambulância. Algumas famílias recebem do médico um plano individual de ação. Mesmo assim, duração acima de 5 minutos, repetição, lesão, dificuldade respiratória ou recuperação incomum mudam a situação e justificam atendimento de emergência.

O que causa crises convulsivas?

Uma crise convulsiva pode ser provocada por uma alteração aguda ou fazer parte de uma condição com predisposição a crises recorrentes. Descobrir a causa exige avaliar o contexto, a idade, os sintomas, o exame neurológico e, quando indicados, exames complementares.

A OMS organiza as causas da epilepsia em categorias estruturais, genéticas, infecciosas, metabólicas, imunes e desconhecidas. Entre os exemplos citados pela instituição estão:

  • lesões cerebrais relacionadas ao período pré-natal ou ao nascimento;
  • malformações congênitas e algumas condições genéticas;
  • traumatismo craniano grave;
  • acidente vascular cerebral;
  • infecções como meningite, encefalite e neurocisticercose;
  • síndromes genéticas específicas;
  • tumores cerebrais.

Isso não significa que toda pessoa que convulsiona tenha uma dessas condições. Também não é possível identificar a causa apenas pela aparência dos movimentos. O relato de quem presenciou o episódio ajuda: anote o que aconteceu antes, qual parte do corpo se moveu primeiro, se houve perda de consciência, quanto tempo durou e como foi a recuperação.

Quando for seguro e sem atrasar os primeiros socorros, um vídeo curto pode auxiliar o médico a compreender o episódio. Não grave para exposição pública; preserve a dignidade da pessoa e priorize sempre a proteção física.

Em crianças com febre, veja também o conteúdo sobre convulsão febril. Episódios breves de olhar fixo e interrupção da atividade podem ter outra apresentação e são explicados no artigo sobre crise de ausência.

Quando procurar um médico?

Toda primeira crise convulsiva precisa de avaliação médica, mesmo que tenha parado sozinha e a pessoa pareça recuperada. Crises repetidas, mudança no padrão habitual ou recuperação diferente do comum também exigem investigação sem adiar.

Procure atendimento médico quando houver:

  • primeiro episódio de convulsão;
  • repetição de crises, mesmo que sejam breves;
  • movimentos suspeitos durante o sono;
  • febre associada a crise em criança;
  • confusão, fraqueza ou alteração de comportamento após o episódio;
  • trauma recente na cabeça;
  • mudança na duração ou na forma das crises de quem já tem diagnóstico;
  • dúvidas sobre uso regular de medicamentos prescritos.

Chame o SAMU 192 imediatamente se a crise durar mais de 5 minutos, repetir sem recuperação, ocorrer na água ou durante a gravidez, provocar lesão, ou se a pessoa tiver dificuldade para respirar ou despertar. Enquanto aguarda, mantenha o local seguro, lateralize com cuidado se ela estiver deitada e não coloque nada em sua boca.

Não inicie, suspenda ou altere medicamentos por conta própria depois de uma crise. A avaliação clínica é o caminho para diferenciar um evento isolado de epilepsia, investigar causas tratáveis e definir o acompanhamento necessário sem falsas promessas.

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica.

Perguntas frequentes

Quem convulsiona pode engolir a língua?
Não se deve tentar segurar a língua nem colocar dedos, colher, pano ou qualquer objeto na boca. Segundo o CDC, isso pode ferir os dentes ou a mandíbula; o mais seguro é proteger a pessoa, mantê-la de lado quando estiver deitada e observar a respiração.
Uma convulsão pode acontecer enquanto a pessoa dorme?
Um episódio suspeito pode ser percebido durante o sono, mas nem todo movimento noturno é uma convulsão. Registre o que observou, a duração e como a pessoa ficou depois, e leve essas informações para avaliação médica; se houver dificuldade para respirar ou despertar, chame o SAMU 192.
Depois da crise, o que a pessoa sente é normal?
É possível haver sonolência, confusão e necessidade de repouso após o episódio. Fique por perto, explique com calma o que ocorreu e não ofereça água ou comida até que a pessoa esteja completamente alerta; dificuldade para respirar ou acordar exige o SAMU 192.
Toda convulsão é epilepsia?
Não. A Organização Mundial da Saúde ressalta que uma crise isolada não significa epilepsia; a epilepsia é caracterizada por crises recorrentes não provocadas. A causa do episódio precisa ser investigada antes de qualquer conclusão.
Uma convulsão pode matar?
A maioria das crises termina em poucos minutos, mas há situações com risco de complicações, como crise prolongada, repetição sem recuperação, queda, afogamento ou dificuldade respiratória. Nesses cenários, chame o SAMU 192 imediatamente.

Fontes

Dr. Francinaldo Gomes, Neurocirurgião

Escrito e revisado por

Dr. Francinaldo Gomes

Neurocirurgião

CRM 6346 PA · RQE 3805 · CRM 103790 SP · RQE 305

Neurocirurgião especialista em neurocirurgia funcional, com atuação em Belém-PA e São Paulo-SP.