Crise Convulsiva: O Que Fazer (e o Que NUNCA Fazer) na Hora

Resposta direta
Diante de uma crise convulsiva, mantenha a calma, afaste objetos que possam machucar, proteja a cabeça e marque o tempo. Se a pessoa estiver deitada, vire-a com cuidado de lado e permaneça por perto até que recupere a consciência. Não segure os movimentos e não coloque nada na boca. Chame o SAMU 192 se a crise passar de 5 minutos, repetir logo depois, causar lesão ou ocorrer em situações de maior risco.
Ver alguém cair, perder a consciência e apresentar abalos no corpo assusta. Naquele momento, porém, agir com calma e evitar medidas perigosas é mais importante do que tentar interromper os movimentos à força.
Eu sou o Doutor Francinaldo Gomes, médico neurocirurgião, especialista em neuromodulação, epilepsia e cannabis medicinal, e neste artigo vou explicar como reconhecer uma crise convulsiva, prestar os primeiros socorros e identificar quando a situação exige o SAMU 192.
As orientações abaixo servem para reduzir o risco de trauma e manter a pessoa segura enquanto a crise acontece. Elas não substituem a avaliação da causa, especialmente quando é o primeiro episódio.
O que é uma crise convulsiva?
Uma crise convulsiva é um episódio de movimentos involuntários provocado por descargas elétricas excessivas no cérebro. Ela pode envolver parte do corpo ou o corpo inteiro e, em alguns casos, vir acompanhada de perda de consciência.
A Organização Mundial da Saúde explica que as crises podem variar muito: algumas causam apenas uma breve interrupção da atenção ou pequenos abalos musculares; outras provocam rigidez, queda e movimentos intensos. Por isso, nem toda crise epiléptica se parece com a convulsão que as pessoas costumam imaginar.
Também é importante separar dois conceitos:
- Crise convulsiva é o episódio observado naquele momento.
- Epilepsia é uma doença neurológica crônica caracterizada por crises recorrentes não provocadas.
Uma única convulsão, portanto, não confirma epilepsia. Segundo a OMS, uma crise isolada pode acontecer ao longo da vida sem que a pessoa tenha a doença. Febre na infância, alterações metabólicas e agressões agudas ao cérebro podem provocar um episódio; já a investigação de crises repetidas considera causas estruturais, genéticas, infecciosas, metabólicas, imunes ou ainda desconhecidas.
Se você precisa entender melhor essa diferença, leia o guia sobre epilepsia e a explicação dos tipos de epilepsia.
O que fazer quando alguém convulsiona?
O objetivo dos primeiros socorros é proteger a pessoa de lesões, manter a via aérea livre e observar o tempo. A recomendação central é não entrar em pânico e permanecer ao lado dela até que esteja novamente alerta.
Siga este passo a passo:
- Olhe o relógio e cronometre a crise. Anote o horário de início; a duração define quando a ajuda de emergência é necessária.
- Afaste perigos. Retire móveis, objetos pontiagudos, líquidos quentes e qualquer item que possa causar trauma durante os movimentos.
- Ajude a pessoa a chegar ao chão, se for possível com segurança. Não tente carregá-la enquanto os abalos acontecem.
- Proteja a cabeça. Coloque sob ela algo macio, baixo e plano, como uma roupa dobrada. Retire os óculos.
- Afrouxe o que estiver apertado no pescoço. Gravata, colar ou gola justa podem dificultar a respiração.
- Se estiver deitada, vire-a com cuidado de lado. Mantenha a boca voltada para baixo, sem forçar o pescoço, para ajudar a manter a via aérea livre.
- Permaneça por perto. Observe a respiração, impeça que outras pessoas se aglomerem e aguarde os movimentos terminarem.
- Depois, acolha e explique. Quando ela estiver despertando, fale com calma, diga o que aconteceu e ajude-a a permanecer em um lugar seguro.
Essas medidas seguem a orientação de primeiros socorros do CDC. Se houver uma pulseira ou identificação médica, procure informações sobre condições de saúde, contatos de emergência e orientações individuais.
Depois da crise, não apresse a pessoa para se levantar. Confusão e sonolência podem dificultar a compreensão do ambiente. Fique ao lado dela, preserve sua privacidade e ofereça ajuda para contatar um familiar.
O que NUNCA fazer durante uma convulsão?
Não tente parar os abalos à força e não coloque nada na boca. Essas atitudes não encerram a crise e podem causar ferimentos na pessoa e em quem tenta ajudar.
Evite também:
- Conter os movimentos: segurar o corpo contra o chão pode provocar lesões.
- Abrir a boca à força: objetos podem machucar dentes e mandíbula ou bloquear a via aérea.
- Fazer respiração boca a boca durante os abalos: o CDC orienta não realizar essa manobra enquanto a crise está em curso.
- Dar água, comida ou comprimidos: espere até que a pessoa esteja completamente alerta, pois há risco de engasgo.
- Sacudir, gritar ou jogar água no rosto: essas ações não fazem a crise terminar.
- Ir embora assim que os movimentos cessarem: a recuperação ainda exige observação, acolhimento e um ambiente seguro.
O mito de que é preciso impedir a pessoa de “engolir a língua” leva justamente às condutas mais perigosas. Em vez de manipular a boca, lateralize com cuidado quando ela estiver deitada, retire objetos ao redor e monitore o tempo.
Quando chamar o SAMU 192?
Chame o SAMU 192 se a crise durar mais de 5 minutos ou se outra crise começar logo depois, sem recuperação adequada. A emergência também é indicada diante de dificuldade para respirar ou despertar, lesão, gestação, primeira crise ou episódio dentro da água.
Use estes critérios objetivos:
- a crise ultrapassou 5 minutos;
- uma segunda crise começou pouco depois da primeira;
- a pessoa não recupera a consciência como esperado;
- há dificuldade para respirar após os movimentos;
- houve queda, sangramento ou outra lesão;
- o episódio aconteceu na água;
- é a primeira crise conhecida daquela pessoa;
- a pessoa está grávida;
- a pessoa tem diabetes, perdeu a consciência e apresentou crise.
Esses sinais correspondem aos critérios de emergência descritos pelo CDC, adaptando o número de emergência para o SAMU no Brasil. Ao telefonar, informe o endereço exato, a duração da crise, se houve repetição, como está a respiração e se ocorreu algum trauma.
Nem toda crise de uma pessoa com diagnóstico conhecido exige ambulância. Algumas famílias recebem do médico um plano individual de ação. Mesmo assim, duração acima de 5 minutos, repetição, lesão, dificuldade respiratória ou recuperação incomum mudam a situação e justificam atendimento de emergência.
O que causa crises convulsivas?
Uma crise convulsiva pode ser provocada por uma alteração aguda ou fazer parte de uma condição com predisposição a crises recorrentes. Descobrir a causa exige avaliar o contexto, a idade, os sintomas, o exame neurológico e, quando indicados, exames complementares.
A OMS organiza as causas da epilepsia em categorias estruturais, genéticas, infecciosas, metabólicas, imunes e desconhecidas. Entre os exemplos citados pela instituição estão:
- lesões cerebrais relacionadas ao período pré-natal ou ao nascimento;
- malformações congênitas e algumas condições genéticas;
- traumatismo craniano grave;
- acidente vascular cerebral;
- infecções como meningite, encefalite e neurocisticercose;
- síndromes genéticas específicas;
- tumores cerebrais.
Isso não significa que toda pessoa que convulsiona tenha uma dessas condições. Também não é possível identificar a causa apenas pela aparência dos movimentos. O relato de quem presenciou o episódio ajuda: anote o que aconteceu antes, qual parte do corpo se moveu primeiro, se houve perda de consciência, quanto tempo durou e como foi a recuperação.
Quando for seguro e sem atrasar os primeiros socorros, um vídeo curto pode auxiliar o médico a compreender o episódio. Não grave para exposição pública; preserve a dignidade da pessoa e priorize sempre a proteção física.
Em crianças com febre, veja também o conteúdo sobre convulsão febril. Episódios breves de olhar fixo e interrupção da atividade podem ter outra apresentação e são explicados no artigo sobre crise de ausência.
Quando procurar um médico?
Toda primeira crise convulsiva precisa de avaliação médica, mesmo que tenha parado sozinha e a pessoa pareça recuperada. Crises repetidas, mudança no padrão habitual ou recuperação diferente do comum também exigem investigação sem adiar.
Procure atendimento médico quando houver:
- primeiro episódio de convulsão;
- repetição de crises, mesmo que sejam breves;
- movimentos suspeitos durante o sono;
- febre associada a crise em criança;
- confusão, fraqueza ou alteração de comportamento após o episódio;
- trauma recente na cabeça;
- mudança na duração ou na forma das crises de quem já tem diagnóstico;
- dúvidas sobre uso regular de medicamentos prescritos.
Chame o SAMU 192 imediatamente se a crise durar mais de 5 minutos, repetir sem recuperação, ocorrer na água ou durante a gravidez, provocar lesão, ou se a pessoa tiver dificuldade para respirar ou despertar. Enquanto aguarda, mantenha o local seguro, lateralize com cuidado se ela estiver deitada e não coloque nada em sua boca.
Não inicie, suspenda ou altere medicamentos por conta própria depois de uma crise. A avaliação clínica é o caminho para diferenciar um evento isolado de epilepsia, investigar causas tratáveis e definir o acompanhamento necessário sem falsas promessas.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica.




