
O que é depressão e como saber se você sofre com esse transtorno?
Resposta direta
A depressão é um transtorno mental caracterizado por tristeza profunda, apatia e perda de interesse por atividades antes prazerosas, por pelo menos duas semanas — diferente da tristeza passageira. É uma condição tratável: com acompanhamento adequado, que combina psicoterapia e, quando o médico indica, medicação, a maioria das pessoas alcança a remissão dos sintomas. Nos casos que não respondem ao tratamento inicial — a chamada depressão resistente — um especialista pode avaliar abordagens de neuromodulação, como a estimulação magnética transcraniana (rTMS), sempre de forma individualizada e sem garantia de resposta.
Você sabe o que é a depressão? Esse é um tema que vem ganhando cada vez mais importância, mas que várias pessoas ainda não entendem de verdade com a seriedade necessária.
Conseguir identificar os sintomas da depressão, entender quais são as opções de tratamento, quais são as suas causas e o que ela pode causar no corpo quando não é tratada adequadamente é de extrema importância, e hoje falaremos sobre isso.
Eu sou o Doutor Francinaldo Gomes, médico neurocirurgião, especialista em neuromodulação, epilepsia e cannabis medicinal, e nesse artigo você irá aprender mais sobre a depressão.
Imagine a seguinte situação:
Você percebe que sua tia, agora com 40 anos de idade, passou a apresentar desinteresse pelas atividades diárias. Ela fica triste o tempo todo e também está com baixa autoestima.
O quadro surgiu há cerca de 12 meses, após a perda do seu esposo, e desde então ela vem se queixando que não consegue dormir, carregando o sentimento de culpa pela perda.
Embora esta não seja a realidade, a impressão é de que tudo perdeu o brilho para ela. Por isso, ela também fala muito em morte e já chegou até mesmo a pensar em tirar a própria vida.
Preocupada com a saúde da sua tia, você a leva em um médico especialista e, após uma minuciosa avaliação e realização de exames, você é informado que ela está com depressão.

O que é a depressão?
Ela é um transtorno mental que afeta cerca de 4% da população mundial — mais de 330 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) — e se caracteriza por sentimentos constantes de tristeza profunda, apatia e perda de interesse em atividades antes prazerosas por um período considerável de tempo (no mínimo 2 semanas).
É uma doença séria que precisa de tratamento, pois afeta consideravelmente a vida social e profissional do indivíduo prejudicando suas relações e capacidade para o desenvolvimento de tarefas simples.
Além disso, a depressão pode ajudar a desencadear ou potencializar outros problemas de saúde de ordem física, que podem agravar ainda mais o quadro geral.
Os problemas de sono estão diretamente ligados à doença, seja pelo seu excesso ou a falta dele, e essa atividade é essencial para a manutenção das atividades diárias do organismo.
Quais os sintomas de depressão?
Os sintomas podem ser bem variados e podem se apresentar da seguinte forma:
- Apatia;
- Perda do interesse por atividades que antes davam prazer;
- Problemas de concentração e memória;
- Sensação de falta de energia;
- Baixa autoestima;
- Sentimento de culpa;
- Perda da libido (interesse pelo relacionamento sexual);
- Irritabilidade;
- Ansiedade;
- Pensamentos de morte ou suicídio;
- Alterações no sono (desde insônia até a sonolência excessiva);
- Alterações (para mais ou para menos) no apetite.
De modo geral, a doença é caracterizada quando dois ou mais desses sintomas persistem por mais de duas semanas e, nesse momento, deve alertar-se para a busca imediata de ajuda de um médico especialista.
Alguns sintomas, como a dificuldade de concentração, também aparecem em outros quadros — como o TDAH — o que reforça a importância da avaliação médica para o diagnóstico correto.
Depressão ou tristeza: quais são as diferenças?
Existem diferenças entre a depressão e a tristeza, ainda que muitas pessoas utilizem, erroneamente, o termo depressão ou estar deprimido para estados emocionais passageiros de tristeza.
No entanto, essa expressão é inadequada, tendo em vista a seriedade do transtorno depressivo e tudo que ele representa.
Ao contrário da depressão, a tristeza é um sentimento natural, através do qual sentimos as perdas ou sofrimentos e ressignificamos determinadas memórias a fim de superar algum episódio específico.
Ou seja, no caso da tristeza existe uma causa, como uma perda de alguém importante de ou até mesmo do emprego.
Sobre isso, há um processo de luto natural em que se misturam boas lembranças as tristezas, em ondas de sentimentos que vão e vem e passam após algum tempo.
Além disso, a tristeza parece ser o sentimento mais duradouro, pois, quando algo nos deixa feliz, rapidamente voltamos ao estado natural, mas quando ficamos tristes levamos mais tempo para superar.
Justamente por isso que devemos entender que a tristeza é um sentimento passageiro (ou seja, sua duração deve ser de dias e não de semanas). Caso contrário, acende-se um sinal de alerta no qual a apatia, desesperança, indiferença e desgostos podem surgir e permanecer de modo que surja a depressão.
Causas da Depressão: O que pode causar depressão?
Apesar de depressão e tristeza serem diferentes, como destacamos anteriormente, a depressão também pode ser ocasionada por uma tristeza não superada.
Por isso que é importante olhar para si mesmo com atenção e procurar ajuda quando algo parece sair do controle.
Ainda, existem predisposições genéticas, alterações nos processos químicos cerebrais e fatores socioambientais que podem contribuir para o desenvolvimento da doença, inclusive até mesmo insônia pode gerar o quadro de depressão.
Existe também um componente genético: ter um pai ou uma mãe que tiveram transtorno depressivo pode aumentar a chance de uma pessoa desenvolver a doença.
Assim, toda a situação de estresse emocional prolongado de grande intensidade, chamados eventos estressores, podem ser cruciais para o início de um caso de depressão. Alguns deles são:
- Insatisfação com o trabalho;
- Término de um longo casamento;
- Morte de alguém muito importante em sua vida;
- Traumas físicos ou psicológicos;
- Problemas com peso;
- Uso muito desenfreado de redes sociais.
O estilo de vida também pode aumentar o risco de desenvolver depressão. São fatores negativos: dietas ricas em açúcar e sedentarismo, o consumo de substâncias tóxicas ao organismo, como álcool, drogas e até mesmo alguns medicamentos.
Assim, é importante ressaltar que não existe apenas um fator determinante para a depressão.
O transtorno depressivo é causado pelo somatório de vários fatores, sendo que um pode contribuir com outro de forma que minimize a capacidade do nosso cérebro de reagir a determinados eventos, fazendo com que surjam os sintomas prolongados e consequentemente a depressão.

Como é feito o diagnóstico da depressão?
O diagnóstico da depressão é feito com um médico especialista que conversa em uma consulta aberta com o paciente sobre a sua vida e os acontecimentos.
Com base nos relatos, o médico então pode sugerir a realização de determinados exames na maioria das vezes para descartar doenças secundárias como tumores, falta de hormônios e várias outras que podem causar sintomas depressivos.
Assim, ele indicará o tratamento adequado para cada pessoa, considerando, então, o grau da depressão, já que a depressão pode se manifestar de modo leve, moderado ou grave.
Como é feito o tratamento da depressão?
O tratamento vai depender da intensidade que a pessoa está enfrentando naquele momento, mas, de modo geral, o tratamento conta com dois grandes aliados: os antidepressivos e a psicoterapia.
A conduta adequada para cada pessoa é definida pelo médico. Assim, além da intensidade, o fator tempo também é considerado, ou seja, em quanto tempo de terapia ou de tratamento com medicamento o paciente conseguirá uma melhora significativa em seu quadro.
Um ponto importante é que o uso de antidepressivos, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não tem como objetivo manter a pessoa dependente dos remédios, muito pelo contrário.
Na verdade, esses medicamentos são auxiliadores em uma recuperação mais acelerada, de modo que, após um determinado período de tempo, a pessoa consiga por si só levar a sua vida, sem necessitar mais de medicamentos.
Nesse processo a psicoterapia, principalmente a terapia cognitivo-comportamental, pode ajudar a pessoa, através de métodos de pensamento e atitude práticos em seu dia a dia, a superar gradualmente o quadro depressivo.
Da mesma forma que o remédio, a psicoterapia não é eterna e o seu objetivo é a superação do quadro depressivo. Em algumas pessoas, apenas a terapia cognitivo-comportamental pode ser indicada, em outros existe a união do uso de antidepressivos com a psicoterapia para acelerar o processo e promover mais qualidade de vida.
A mudança no estilo de vida também pode ser prerrogativa no tratamento da depressão, tendo em vista que esse é um fator causador do transtorno.
Assim, para tratar a depressão de forma adequada é preciso seguir as recomendações médicas, pois tanto o médico quanto o terapeuta são os profissionais capacitados para o tratamento desse transtorno.
O teste farmacogenético também pode ser considerado pelo médico: ele utiliza o material genético do paciente para ajudar a orientar a escolha do medicamento mais adequado para cada caso.
Neuromodulação: uma opção para casos de depressão resistente
Quando a depressão não responde de forma adequada à combinação de medicação e psicoterapia, o quadro pode ser chamado de depressão resistente (ou refratária). Nesses casos, além de rever o plano terapêutico com o médico, existem abordagens de neuromodulação que podem ser avaliadas de forma individualizada por um especialista.
Entre as técnicas de neuromodulação, a estimulação magnética transcraniana (EMT, ou rTMS) é uma opção não invasiva reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina (Resolução CFM nº 1.986/2012) como ato médico para o tratamento da depressão. É considerada uma opção para casos de depressão resistente ao tratamento e deve ser indicada e conduzida por um médico, após avaliação individual. Como em qualquer tratamento, os resultados variam de pessoa para pessoa e não há garantia de resposta.
O Dr. Francinaldo Gomes é neurocirurgião e atua com neuromodulação. A indicação de qualquer procedimento depende sempre de avaliação médica, caso a caso, considerando o histórico e a resposta aos tratamentos anteriores.
Estimulação do nervo vago
A estimulação do nervo vago utiliza um dispositivo implantado por cirurgia, que emite estímulos transmitidos até o tecido cerebral. O procedimento é realizado por um neurocirurgião, e o acompanhamento posterior costuma ser feito pelo médico especialista. Costuma ser considerado para pacientes com depressão refratária ao tratamento medicamentoso e à psicoterapia.
Os resultados variam de pessoa para pessoa, e a abordagem ainda é objeto de estudo. A indicação, os potenciais benefícios e os riscos devem ser avaliados individualmente com o médico, caso a caso.
O que a depressão pode causar no corpo quando não é tratada adequadamente?
Como descrito nos sintomas, a depressão afeta drasticamente o humor de quem a desenvolve, no entanto, algumas complicações físicas também podem surgir.
Em momentos de pandemia, por exemplo, todos nos preocupamos com o sistema imunológico, enquanto em uma depressão negligenciada pode justamente prejudicar a capacidade do nosso organismo de lutar contra bactérias e vírus.
Solidão faz mal?
Alguns estudos associam que o sentimento de solidão prejudica a saúde de forma semelhante a fumar 15 cigarros por dia. O sono também acaba sendo bastante afetado, o que pode, por consequência, contribuir para um efeito cascata nocivo à saúde como um todo.

Quais atitudes ajudam a combater a depressão?
O principal fator de combate a depressão é o autocuidado, ou seja, olhar para si com olhos carinhosos e de atenção, percebendo as suas necessidades e não negligenciando a sua saúde física e mental, pois ambas estão intrinsecamente ligadas.
Alimentação e depressão
Outro fator importante é o cuidado com a alimentação. Uma alimentação rica em carboidratos e açúcares pode propiciar o quadro para que uma depressão se instale.
Portanto, dê preferência a alimentos saudáveis e evite comidas industrializadas, mantendo uma dieta equilibrada.
Isso não significa necessariamente que você não possa comer um doce, uma pizza ou um bolo, por exemplo. Ao contrário disso, esses alimentos nos trazem prazer e podemos comê-los, mas eles não devem fazer parte da sua rotina alimentar (ou seja, são exceções à regra).
Inclusive, o hábito de cozinhar pode ajudar a enfrentar uma depressão. Assim, busque receitas novas, com novas formas de se alimentar, para que você possa ter um aporte nutricional adequado e ingerir alimentos de boa qualidade que vão te dar um pequeno prazer momentâneo, ao mesmo tempo que um prazer mais durador.
Afinal, um corpo saudável ajuda a manter uma pessoa feliz por mais tempo do que doce, por exemplo.
Atividade física e depressão
O sedentarismo é um fator de risco para a depressão, por isso devemos nos manter sempre em movimento. O ideal são atividades ao ar livre que permitem o contato com a natureza, pois elas ajudam a liberar serotonina.
Assim, as atividades físicas por si só também contribuem para a liberação de endorfinas. Ambos os hormônios (serotonina e endorfina) são substâncias essenciais para que a depressão não se instale, além de serem um dos maiores responsáveis pelo nosso bom humor e bem-estar.
Por mais que no momento não seja possível realizar algumas atividades físicas, faça-as em casa, de modo a se manter em movimento. Ainda, plantas em casa também podem ajudar a deixar o ambiente com um toque agradável de natureza.
Socialização saudável
Os nossos meios sociais são importantes para que a manutenção da nossa saúde mental se consolide.
Assim, mantenha contato com seus amigos sempre que possível e, enquanto não puder encontrá-los pessoalmente, por exemplo, faça vídeo chamadas, converse e se precisar jogue conversa fora.
Ainda, assim que possível, saia e se divirta, pois isso é muito importante para sua recuperação.
Sono e depressão
Dormir bem também é fundamental para a sua saúde física e mental. Manter bons hábitos em relação ao sono vão te ajudar a afastar a depressão.
Faça do seu quarto um santuário do sono e use-o apenas para dormir e ter relações sexuais (deixe as outras atividades para serem feitas fora do quarto).
Se estiver com dificuldade para dormir, você não precisa ficar rolando na cama. Ao invés disso, levante, leia algo e não tenha contato com telas, para deixar suas ondas cerebrais em uma frequência de repouso.
Essas premissas fazem parte do que chamamos de higiene do sono, que pode ser aplicada por qualquer pessoa tanto para melhorar o tempo e a qualidade do sono (ambos fatores importantíssimos para o bem-estar).
Vale lembrar que a insônia pode levar à depressão, o que é mais um motivo fundamental para cuidar do seu sono. Distúrbios do sono podem se manifestar de diferentes formas — entre elas, a paralisia do sono — e merecem atenção quando são frequentes.
Canabidiol e depressão
O canabidiol é uma linha de pesquisa em avaliação para transtornos de humor e de ansiedade. Ainda não há consenso científico que o estabeleça como tratamento para a depressão, e mais estudos são necessários.
Qualquer uso de canabidiol deve ser avaliado e acompanhado por um médico. No Brasil, o acesso é regulado pela Anvisa (RDC 327/2019), e esta seção tem caráter apenas informativo — não constitui indicação de uso nem promessa de resultado. Para entender melhor o tema, veja tudo sobre o canabidiol explicado por um neurocirurgião.

Depressão tem cura?
Mais importante do que a ideia de "cura" é entender que a depressão é uma condição de saúde tratável. Com acompanhamento adequado, muitas pessoas alcançam a remissão — quando os sintomas ficam controlados e a pessoa retoma a sua rotina.
Casos de depressão leve costumam responder ao acompanhamento psicoterapêutico. Em quadros moderados a graves, o médico pode indicar também o uso de medicação, sempre de forma individualizada.
A depressão pode ter caráter recorrente, ou seja, episódios podem voltar ao longo da vida. Por isso, o acompanhamento contínuo faz parte do cuidado, mesmo após a melhora dos sintomas. Nos casos que não respondem ao tratamento inicial, o médico especialista pode avaliar outras opções, como as abordagens de neuromodulação.
Conclusões
Para concluir, a depressão é uma doença frequentemente negligenciada e que exige cuidados especiais, tanto por parte dos pacientes quanto dos profissionais de saúde.
Com acompanhamento adequado, iniciado o quanto antes, a maioria das pessoas consegue controlar os sintomas e alcançar a remissão. Nos casos que não respondem ao tratamento inicial, o médico especialista pode avaliar abordagens de neuromodulação, sempre de forma individualizada.
Clique aqui para conhecer as 5 doenças neurológicas mais comuns.
Não se esqueça de colocar em prática o que você aprendeu neste texto e de compartilhá-lo com seus amigos e familiares.
E, principalmente, compartilhe comigo nos comentários as suas dúvidas e experiências ao lidar com a depressão.


