Doenças Neurológicas

Demência Vascular: Sintomas, Causas e Diferença para o Alzheimer

8 min de leitura
Demência vascular: sintomas, causas, estágios e diferença para o Alzheimer explicados por neurocirurgião.

Resposta direta

A demência vascular é um declínio cognitivo causado por lesões nos vasos sanguíneos do cérebro, como AVCs, microinfartos ou doença de pequenos vasos, que comprometem a circulação e danificam áreas responsáveis pela memória, atenção e planejamento. Diferente do Alzheimer, que costuma evoluir de forma lenta e gradual, a demência vascular tende a piorar em degraus, muitas vezes após um novo evento vascular, e afeta mais cedo a marcha e as funções executivas (organizar, planejar, tomar decisões). Não existe cura, mas o controle rigoroso da pressão arterial, do diabetes, do colesterol e o fim do tabagismo podem ajudar a reduzir novos episódios e a progressão. Procure atendimento médico imediato diante de fraqueza súbita, alteração da fala, confusão mental abrupta ou piora rápida da cognição.

Eu sou o Doutor Francinaldo Gomes, médico neurocirurgião, especialista em neuromodulação, epilepsia e cannabis medicinal e neste artigo nós vamos falar sobre a demência vascular.

Você vai entender o que é a demência vascular, quais são seus sintomas e causas, como ela evolui em estágios, qual a diferença entre demência vascular e Alzheimer, o que esperar em termos de prognóstico e quais são as formas de tratamento e prevenção.

O que é a demência vascular?

A demência vascular é um declínio das funções cognitivas causado por lesões nos vasos sanguíneos que irrigam o cérebro.

Quando esses vasos são danificados, seja por um acidente vascular cerebral (AVC), por pequenos infartos silenciosos ou pela doença de pequenos vasos, determinadas áreas do cérebro deixam de receber sangue e oxigênio de forma adequada.

Isso compromete o funcionamento dessas regiões e, com o tempo, gera prejuízo de memória, atenção, linguagem, planejamento e outras funções cognitivas.

É uma das causas mais frequentes de demência, geralmente citada logo depois do Alzheimer, e muitas vezes as duas condições coexistem no mesmo paciente, o que é chamado de demência mista.

Diferente de doenças puramente neurodegenerativas, a demência vascular está diretamente ligada à saúde do sistema circulatório. Por isso, ela costuma andar lado a lado com outras condições vasculares, como a hipertensão mal controlada e episódios prévios de AVC, o que faz do controle das doenças crônicas e dos hábitos de vida uma parte importante do cuidado — ainda que fatores não modificáveis, como idade e predisposição individual, também pesem no quadro.

Quais são as causas da demência vascular?

A causa central da demência vascular é a lesão do tecido cerebral por comprometimento da circulação sanguínea.

Isso pode ocorrer de diferentes formas:

  • AVCs (acidentes vasculares cerebrais), sejam eles isquêmicos ou hemorrágicos, que destroem áreas específicas do cérebro.
  • Microinfartos, pequenos episódios que muitas vezes passam despercebidos, mas que se acumulam ao longo dos anos.
  • Doença de pequenos vasos, um dano progressivo e difuso nos vasos de menor calibre do cérebro, associado a hipertensão de longa data.
  • Menos frequentemente, hemorragias cerebrais repetidas também contribuem para o quadro.

Os principais fatores de risco vascular por trás dessas lesões são a hipertensão arterial, o diabetes, o colesterol elevado, o tabagismo, a fibrilação atrial e o sedentarismo. Reconhecer sinais de um evento agudo é essencial — veja os principais sinais em sintomas de AVC.

Quais são os sintomas da demência vascular?

Os sintomas variam conforme a região do cérebro afetada, mas alguns padrões são característicos.

  • Lentidão de raciocínio e dificuldade para se concentrar.
  • Prejuízo nas funções executivas: organizar tarefas, planejar, tomar decisões e resolver problemas do dia a dia.
  • Alterações de marcha, com passos curtos, instabilidade e maior risco de quedas.
  • Mudanças de humor, como apatia, irritabilidade ou depressão.
  • Dificuldade de atenção e de manter o foco em atividades.
  • Esquecimento, embora geralmente menos proeminente do que no Alzheimer nas fases iniciais — veja mais sobre esse sintoma em esquecimento.

Esses sintomas podem aparecer de forma relativamente súbita, associados a um evento vascular identificável, ou se instalar de modo mais insidioso quando a causa é a doença de pequenos vasos.

Quais são os estágios da demência vascular?

A demência vascular costuma ser descrita em estágios de gravidade crescente, embora o ritmo de progressão varie bastante de pessoa para pessoa.

Estágio inicial (leve)

Nesta fase há dificuldade discreta de planejamento, lentidão de raciocínio e pequenas falhas de atenção, muitas vezes confundidas com o envelhecimento normal. A pessoa ainda mantém boa independência.

Estágio intermediário (moderado)

Há maior comprometimento das funções executivas, dificuldade para lidar com tarefas complexas do dia a dia, alterações mais evidentes de marcha e maior dependência de apoio de terceiros.

Estágio avançado (grave)

Nesta fase ocorre perda importante de autonomia, com necessidade de auxílio para atividades básicas, além de maior prejuízo de linguagem, mobilidade e, em muitos casos, controle esfincteriano.

A transição entre os estágios pode ser gradual, mas é comum observar pioras em degraus, ou seja, quedas relativamente abruptas da capacidade funcional associadas a novos eventos vasculares, seguidas de períodos de relativa estabilidade.

Qual a diferença entre demência vascular e Alzheimer?

A principal diferença está na causa e no padrão de evolução.

O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, causada pelo acúmulo progressivo de proteínas anormais no cérebro, com evolução tipicamente lenta e gradual, e o sintoma mais precoce costuma ser o prejuízo de memória recente.

Já a demência vascular tem origem em lesões vasculares — AVCs, microinfartos, doença de pequenos vasos — e tende a evoluir em degraus, com pioras associadas a novos eventos vasculares. O perfil de sintomas também difere: no início, a demência vascular costuma afetar mais as funções executivas e a marcha, enquanto o Alzheimer afeta primeiro a memória.

Na prática clínica, é comum encontrar pacientes com demência mista, em que características das duas condições coexistem, o que reforça a importância da avaliação médica individualizada para direcionar o tratamento.

Como é feito o diagnóstico da demência vascular?

O diagnóstico é clínico, baseado na história do paciente, no exame neurológico e em testes cognitivos, associado a exames de imagem.

A ressonância magnética ou tomografia do crânio ajuda a identificar sinais de lesões vasculares, como áreas de infarto antigo ou alterações compatíveis com doença de pequenos vasos.

Também são avaliados os fatores de risco vascular do paciente, com exames de pressão arterial, glicemia e perfil lipídico, além de avaliação cardiológica quando indicado, já que a fibrilação atrial e outras condições cardíacas podem ser fonte de eventos vasculares cerebrais.

Testes neuropsicológicos ajudam a mapear quais funções cognitivas estão mais comprometidas — memória, atenção, linguagem, funções executivas ou velocidade de processamento — e a acompanhar a evolução do quadro ao longo do tempo. Essa avaliação também é útil para diferenciar a demência vascular de outras causas de declínio cognitivo e para identificar casos de demência mista, em que características vasculares e degenerativas coexistem.

Qual a expectativa de vida na demência vascular?

Não existe um número que se aplique a todos os pacientes — a expectativa e a evolução dependem da extensão das lesões vasculares, da presença de novos eventos, do controle dos fatores de risco e das condições clínicas associadas de cada pessoa.

De forma geral, o controle adequado da pressão arterial, do diabetes, do colesterol e do tabagismo pode ajudar a reduzir o risco de novos eventos vasculares e, com isso, a velocidade de progressão do quadro. Cada caso deve ser acompanhado individualmente pela equipe médica responsável.

Como é feito o tratamento da demência vascular?

Não existe um tratamento que reverta as lesões vasculares já instaladas. O tratamento se concentra em dois pilares principais.

  • Controle dos fatores de risco vascular, para reduzir a chance de novos eventos: controle rigoroso da pressão arterial, do diabetes e do colesterol, além de cessação do tabagismo, sempre sob prescrição e acompanhamento médico.
  • Manejo dos sintomas cognitivos e comportamentais, com apoio de neurologista ou neurocirurgião, podendo incluir medicações específicas, reabilitação cognitiva, fisioterapia para a marcha e suporte multidisciplinar, conforme a avaliação de cada caso.

A adesão ao tratamento das condições vasculares de base é o principal fator sob controle do paciente e da família para tentar frear a progressão do quadro.

O acompanhamento costuma envolver uma equipe multidisciplinar, incluindo neurologista ou neurocirurgião, cardiologista, fisioterapeuta e, quando necessário, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional. O suporte familiar também tem papel importante, tanto na adesão ao tratamento das doenças de base quanto na adaptação da rotina do paciente conforme o quadro evolui, sempre respeitando a autonomia possível em cada estágio.

Como prevenir a demência vascular?

A prevenção da demência vascular passa, essencialmente, pelo controle dos fatores de risco vascular ao longo da vida.

  • Manter a pressão arterial controlada.
  • Controlar o diabetes e a glicemia.
  • Manter o colesterol dentro de níveis adequados.
  • Parar de fumar.
  • Praticar atividade física regularmente.
  • Adotar uma alimentação equilibrada.
  • Tratar condições cardíacas associadas, como a fibrilação atrial, sob orientação médica.
  • Reconhecer precocemente os sinais de um evento vascular agudo — veja sintomas de AVC — e buscar atendimento de urgência, já que cada evento tratado a tempo é um evento a menos contribuindo para o dano cumulativo.

Essas mesmas medidas fazem parte da prevenção de doenças vasculares cerebrais de forma mais ampla, incluindo o aneurisma cerebral, e são reforçadas em quadros de comprometimento cognitivo em geral, conforme abordado em 5 doenças neurológicas mais comuns.

Quando procurar um médico?

Alguns sinais exigem avaliação médica imediata, pois podem indicar um evento vascular agudo em curso:

  • Fraqueza ou dormência súbita em um lado do corpo, do rosto ou de um braço/perna.
  • Dificuldade repentina para falar ou entender o que é dito.
  • Confusão mental de início abrupto.
  • Alteração súbita da visão, da marcha ou do equilíbrio.
  • Dor de cabeça muito intensa e de início súbito, sem causa aparente.

Diante de qualquer um desses sinais, procure o pronto-socorro imediatamente ou acione o SAMU (192): no AVC, o tempo até o atendimento influencia diretamente o resultado. Não espere para ver se melhora nem aguarde uma consulta agendada.

Além dessas urgências, procure um neurologista ou neurocirurgião diante de piora progressiva da memória, do raciocínio, da capacidade de planejar tarefas ou da marcha, mesmo que de forma mais lenta, para investigação e acompanhamento adequados.

Considerações Finais

A demência vascular é uma condição causada por lesões nos vasos sanguíneos do cérebro, com padrão de evolução e perfil de sintomas que a diferenciam do Alzheimer, embora as duas possam coexistir no mesmo paciente.

O controle dos fatores de risco vascular é a principal ferramenta disponível para tentar reduzir novos eventos e a progressão do quadro, mas cada caso tem sua própria evolução e exige acompanhamento individualizado.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Diante de sintomas cognitivos, de alterações de marcha ou de sinais de alerta vascular, a avaliação com neurologista ou neurocirurgião é o caminho para um diagnóstico preciso e um plano de cuidado adequado ao seu caso.

Dr. Francinaldo Gomes, Neurocirurgião

Escrito e revisado por

Dr. Francinaldo Gomes

Neurocirurgião

CRM 6346 PA · RQE 3805 · CRM 103790 SP · RQE 30517

Neurocirurgião especialista em neurocirurgia funcional, com atuação em Belém-PA e São Paulo-SP.